<em>Sobreprodução</em>

Carlos Nabais
As recessões do capitalismo são normalmente associadas ao conceito marxista de «crises de sobreprodução», ou seja, a um chamado excesso de mercadorias que alegadamente não encontram escoamento nos mercados.
Para repor o equilíbrio entre a oferta e a procura, diminui-se a produção. As fábricas encerram e milhões são lançados no desemprego, enquanto não se inicia um novo ciclo de «crescimento».
Assim dito, poderíamos ser levados a pensar que, em determinada altura, se teria produzido acima das necessidades de consumo da sociedade. Estar-se-ia perante um desperdício que importaria corrigir em nome de uma utilização racional dos recursos e do interesse geral.
Todavia, as crises de sobreprodução nunca reflectiram os índices de satisfação das necessidades da humanidade, muito pelo contrário, sempre foram acompanhadas do aumento da pobreza e da fome no mundo.
Na fria lógica do capitalismo, desvendada por Marx e Engels, a sobreprodução é atingida logo que uma mercadoria deixa de proporcionar o lucro desejado. Nesse momento, o produtor capitalista abandona o mercado e suspende a produção, procurando novos investimentos que lhe assegurem a máxima rentabilidade do seu capital.
Se é verdade que muitos progressos tecnológicos foram alcançados sob pressão dos mecanismos do mercado capitalista, não é menos certo que ele é responsável por inúmeras catástrofes sociais e constitui hoje uma séria ameaça ao desenvolvimento da humanidade, tornada refém desta insaciável sede de lucro.
Um relatório da Organização Mundial do Trabalho, divulgado na passada semana, revela que, entre 1993 e 2003, o número de jovens desempregados não parou de aumentar em todo o mundo, atingindo o número recorde de 88 milhões de pessoas.
Alertando para as desastrosas consequências tanto humanas como económicas do facto de um em cada dois desempregados ter entre 15 e 25 anos, a OIT sublinha que bastaria que metade destes jovens entrasse no mercado de trabalho para que a economia mundial crescesse entre 4,4 a 7 por cento.
A redução do desemprego juvenil para metade teria efeitos particularmente sensíveis nas regiões mais pobres como a África subsahariana, que veria a sua economia crescer entre 12 a 19 por cento ao ano, mas outras zonas do globo seriam amplamente beneficiadas: a América Latina teria um aumento do PIB entre 4,9 e 7,8 por cento; o Médio Oriente e o Norte de África poderiam crescer até 11,4 por cento; e mesmo os países ditos desenvolvidos sentiriam um impulso entre 4,3 e 6,8 por cento.
Porém, contrariando os entusiastas da globalização capitalista, a última década ficou marcada por um agravamento do desemprego juvenil em 26,8 por cento, muito superior ao aumento demográfico da população entre os 15 e os 24 anos (10,5%), que totaliza agora 1,1 mil milhões de indivíduos, dos quais 85 por cento vivem nas regiões menos desenvolvidas, designadamente na Ásia Meridional, Médio Oriente e África.
Comentando as conclusões do relatório, Juan Somavia, director-geral da OIT, declarou: «nós estamos a desperdiçar uma parte importante da energia e das competências da nova geração, a mais instruída que o mundo jamais conheceu». «É indispensável aumentar as oportunidades oferecidas aos jovens de encontrar e conservar um emprego decente», acrescentou Somavia, lembrando que «há 130 milhões de jovens entre os 550 milhões de trabalhadores pobres que auferem em média um dólar por dia, lutando diariamente pela sobrevivência».
Para tal, concluiu, são precisas «políticas direccionadas e integradas», mas estas, dizemos nós, terão de contrariar claramente o funcionamento do mercado capitalista, sob pena de tudo continuar na mesma, para pior...


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